domingo, 11 de março de 2012

ontem eu fui dormir de pijama, pois pressenti que alguém me visitaria à noite. e eis que mais tarde encontro joana:

"eu sei o que quero: uma mulher feia e limpa com seios grandes, que me diga: que história é essa de inventar coisas? nada de dramas, venha cá imediatamente! - e me dê um banho môrno, me vista uma camisola branca de linho, trance meus cabelos e me mêta na cama, bem zangada, dizendo: o que então? fica aí solta, comendo fora de hora, capaz de pegar uma doença, deixe de inventar tragédias, pensa que é grande coisa na vida, tome essa xícara de caldo quente. me levanta a cabeça com a mão, me cobre com um lençol grande, afasta alguns fios de cabelo de minha testa, já branca e fresca, e me diz antes de eu adormecer mornamente: vai ver como em pouco tempo engorda esse rosto, esquece as maluquices e fica uma boa menina. alguém que me recolha como a um cão humilde, que me abra a porta, me escove, me alimente, me queira severamente como a um cão, só isso eu quero, como a um cão, a um filho."

personagem joana, em perto do coração selvagem,
de clarice lispector

quinta-feira, 8 de março de 2012

é desde sábado que tenho a boca seca

é desde sábado que tenho a boca seca e algo me falta. é desde sábado que tenho os olhos convulsos. algo olha em volta com olhos de preguiça e não tem sombra. a língua busca em círculos uma consistência e só desliza. há um deslize depois do almoço e palavras sem dentes. lembranças de dente-de-leite e deleite. é desde sábado que tenho os olhos convulsos e nos pés que doem, pequenas chagas. inevitavelmente perguntam: o que se passa? o que em mim grita, encharca. é desde sábado que durmo na sala e sistematicamente evito meu quarto. somos quatro. estamos de quatro e o chão próximo não anuncia sua chegada. enxerga. na ponta do lápis o cúmulo. o cume, o acúmulo, a matemática. é desde sábado outra órbita e omoplata, “a menina dança” sem metatarsos, sistematicamente evita o compasso. são quatro. é sábado. e não há depois do almoço, nem noite que chegue, nem nome que baste. uma ponte é uma ponte e é o mesmo do outro lado. é terra e mar do mesmo modo. alguém em volta. alguém que volta. alguém no portão e uns tantos pés descalços. um beijo na testa. um olhar de medo e uma língua lerda. arrependendo-se-reprimenda, de que não sabe... é desde sábado. e o que se faz com isso? é desde sempre.
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(no canto do cisco, no canto do olho a menina dança. e dentro da menina ainda dança)

quinta-feira, 1 de março de 2012

ele é brega e eu sou chata

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ele é cor de sangue e tem cheiro de samba. tem olho de peixe e cara de sapo. criança que não sabe quando acaba, ele é rock, mesmo de joelho quebrado. ele é dedicado, limpa bem a casa e não dorme à noite. escreve como um doido e dança como um gozo. escreve como um gozo e dança como um doido. ele tem papo com todos, mas tem papas na língua. ele é pra todas as horas. é tímido abobado inteligente engraçado. dança comigo bebe comigo e me dá cigarro. ele cozinha pra mim, aí eu lavo. ele é uma graça e eu morro de saudade se ele não tá do meu lado.
ele é cor de sangue e tem cheiro de samba...




pro Gabriel, aniversariante do dia

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

desplugar:
despir-se do lugar;
um lugar despido, vazio, neutro;
diz-se também da ação de expurgar-se de pulgas.

domingo, 5 de fevereiro de 2012

violento é o que viola a lentidão
hoje eu vi a lua no mar
hoje eu vi as ondas que a barca faz, concêntricas
eu vi ondas lentas
quando os olhos em grande angular.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

pedido de 2 de fevereiro

me dá uma estrela?
pode ser uma de brilho quase fraco.
uma estrela pra deixar ao meu lado
ou no meu braço,
já que tudo em mim anda opaco.