quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Perfume de limão


Hoje cheirei um perfume na farmácia. Foi por insistência do Gabriel que tava abrindo a caixa e desenroscando a tampa pra eu sentir. Eu não queria, por que só de olhar o frasco cheio de folhas, flores e curvas, imaginava um perfume doce. Eu não gosto de perfume, sou muito difícil pra cheiros. Apesar disso, ele colocou o frasco no meu nariz. Inalei e, mesmo sem demonstrar muito, o que senti foi uma surpresa, Ele tem um cheiro que abre, disse um pouco exclamativa É de limão, respondeu o Gabi. A sensação era de um perfume aberto. Era leve, cítrico, com a acidez perfeita pra não fazer enjoar. Se eu fosse desenhar esse cheiro seria como se tivesse um V no tórax. Um V que saísse do peito, subisse pelos ombros e se espalhasse além deles, subindo para fora do corpo. Só mais tarde percebi que essa descrição alcança a sensação que não sabia explicar e que tive ainda hoje, de ti. A sensação não de querer ficar junto, mas a certeza da possibilidade de estar.

segunda-feira, 28 de novembro de 2016

Corra e olhe o céu



Um dia meus olhos ficaram vidrados. Era como se a tristeza tomasse conta de meu rosto e acabasse com qualquer expressão possível. Os olhos acompanhavam essa impassibilidade. Olhavam longe. Quando percebi, procurei desfazê-los. Lembrei de minhas crises epiléticas. O receio era de que não fossem os olhos vidrados consequência da epilepsia, mas sua causa. O rosto, continuou no entanto sem expressão. Enquanto isso os olhos passaram a buscar um lugar mais próximo para fixar que não os fizesse parecer tão abestalhados. Forcei-me a mexê-los. O tempo seco ajudava. Lembrei de Leandro que me dizia saber quando estava mal quando olhava para o céu. Quando caminhava olhando para o céu era sinal de que estava mal. Até aqui sempre discordara dele, discordara não, diferira. Lembrava que, quando estava mal, olhava para o chão, caminhava olhando para o chão. E qualquer tentativa de levantá-los era inútil.

(Certa vez eu estava caminhando, acabara de desligar o telefone, quando um homem negro passou por mim. Alto. Não pude não notar o jeito que caminhava. O seu olhar altivo, que eu não via, mas podia apenas imaginar, dirigindo sua caminhada de cabeça erguida. Em seguida, não fosse que então eu era muito mais magra do que a visão que tinha de mim mesma, eu seria muito parecida com a moça que também passava naquele momento em frente a mim. De mãos dadas com o namorado, bem branca, ela era baixa, de pernas grossas e parecia cansada. Colocava a mão na testa. Talvez reclamando de dor. Caminhava relaxadamente, assim como seu namorado, que tinha um corpo parecido com o seu. Caminhavam como se o corpo fosse um peso a ser carregado. Senti que não podia permanecer ali que, se eu continuasse olhando para aquele andar, eu seria sugada por ele e por aquele casal lento. Ultrapassei-os sem esforço e passei a andar entre o casal e o homem que há poco passara, meu andar era um meio termo entre o andar firme do senhor e o moroso do casal. Estava escuro e os faróis dos carros me deixavam um pouco zonza, meu passo era firme, mas eu não conseguia olhar para frente, meus olhos olhavam só para o chão, minha cabeça pendia para o chão, lembrei de Leandro: “eu sei quando estou louco que é quando eu caminho olhando pro céu”. Eu sei quando estou louca, Leandro, que é quando caminho olhando pro chão.)

Mas dessa vez não, estavam vidrados e olhavam para o céu. Para aquele pedaço de azul que surgia entre a copa das árvores e o guarda sol que fazia sombra na mesa em frente. Perguntei-me se as mulheres que ali conversavam percebiam esse não olhar. Mas não obtive resposta, elas eram como sombra. Apenas lembro que eram loiras.

(Eu procurava dizer para mim mesma que olharia para frente, a caminhada daquele homem era o que então me ajudava. O pescoço doía para segurar a cabeça, e era como se algo se transformasse para segurá-las em pé, as lágrimas. Avançava, com passo firme, a firmeza que os seus passos me davam, cambaleio cada vez que ele olhava para o lado e eu perdia o ponto fixo de meu olhar em sua nuca. Preciso me segurar no muro à direita. As lágrimas correm, um rapaz cruza o meu caminho e ao ver as minhas lágrimas abaixa os olhos, parece se constranger com a cena, as lágrimas correm pois eu nesse momento procuro não olhar pra baixo, cruzo outro homem com a camiseta do vasco, quase nos topamos, sorrimos, consigo sorrir, nos olhar nos olhos e dizer “desculpa” mesmo com as lágrimas que correm, pois estou com a cabeça erguida. Nesses momentos de distração, perdi meu ponto de referência, volto a olhar para a frente e o homem que eu seguia, que me dava o passo, não está mais lá. Sou obrigada a seguir sem um guia. Caminho e as lágrimas que surgiram continuam escorrendo, ao passar por um casal, eles me olham, talvez eu esteja destoando da cena, talvez eles estejam só preocupados.)

Talvez fossem sombras aquilo que agora passava diante de meus olhos, mas também entre meus pensamentos. Como se os apagasse todos, todas as lembranças, que restavam no entanto marcadas em algum lugar, no corpo todo, no peito, na nuca. O que fazia com que minha expressão se fixasse, não num sorriso, mas numa boca incorruptível. Um rapaz de vinte e poucos anos senta na mesa perpendicular a mim. Ao lado daquela que estava ocupada pelas mulheres loiras. Ele estava com um livro grande entre as mãos. Maior do que aquele está em minha mesa e que eu tampouco, assim como ele, lia. Tinha lido há alguns minutos apenas o número suficiente de linhas para me fazer vidrar os olhos. Ele parecia também vidrado, mas não por vazio, por espera. Seus olhos eram tristes como os meus e cheios, os dele, de esperança.



Ele começa a ler, apoia a mão na testa, escondendo assim seus olhos dos meus.

quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Gimme a pose


Assisti no sábado Gimme Danger, documentário do Jim Jarmusch sobre o The Stooges. Acho que o que resume o filme é: um grande performer dirigido por um grande diretor ambos em ação pra contar uma história e onde a historia não é o principal, mas o próprio contar. Humor, leveza. Você sai do cinema mais leve, passa o filme com um sorriso no rosto, quando não dá gargalhadas. Ali as coisas se passam, não interessa tanto o que, mas como, as mortes acontecem, são tristes, mas não trágicas, a droga destrói, também mata, mas não é algo pessoal, reforçada por um meio, mas também problema de uma época. É uma historia de amor, por um som, por um modo de ser, por parceiros.
Ontem assisti Strike a pose, filme sobre os dançarinos que acompanharam Madonna na turnê Vogue e que é dirigido por Ester Gould e Reijer Swaan. Fui impulsionada pela sinopse que falava de como a presença desses bailarinos, promovidos em sua relação com Madonna mobilizou uma campanha contra a homofobia, contra o preconceito em relação à AIDS. Fui dessa vez sem nem ter visto o trailer, mas imaginando um filme que juntasse muita dança, uma dança de rua, já que alguns deles tinham essa origem, dança de rua + política. Uma política que para mim ainda era invisível, já que de Vogue não conheço muito, além dos desejos do meu corpo que gostarm de (tentar) dançar.
Se em Gimme Danger a gente passa com um sorriso no rosto, um sorriso não bobo, mas potente, nesse filme somos reféns de diretores que nos querem fazer chorar. A todo custo. Diretores que vão até o fim na produção de um melodrama, querendo arrancar lágrimas do público a partir das lágrimas que já arrancaram dos personagens.
Não acho que todo filme tenha que nos colocar um sorriso no rosto. Juntei essas sensação por que foram muito próximas em mim, provocadas por dois documentários. Há várias formas de produzir beleza e potência, inclusive com o choro. Mas porque, quando encontramos performers, o que queremos tirar deles é o choro, o melodrama e não sua força? Nesse caso, as mortes são trágicas, as perguntas morais, o mundo que os personagens viveram todo destruído pela busca do glamour do dinheiro e show busness, que não era a verdadeira “essência” deles. Mesmo que a direção coloque eles num lugar de pessoas admiráveis, o que parece sobrar são pessoas que “já foram algo” e agora tem suas vidas comuns. É preciso mostrar que ainda dançam, mas com menos glamour. Então, ao mesmo tempo que parece ser um “olhar crítico” a esse mundo do glamour, que destruiu a vida deles com drogas, matou dramaticamente seus amigos e os deixou doentes, acaba sendo uma exaltação, pois essa história de antes, durante e depois da fama só reforça que o que era glamour é um trecho bem curto de suas vidas e que está no passado, como se as expectativas dessas pessoas não tivessem se concretizado. Ao mesmo tempo que faz isso, o filme procura tirar do “cotidiano simples", uma beleza que fosse mais “verdadeira” do que outras. A verdadeira do simples, que nos é apresentado com imagens épicas e musicas emocionantes.
Saí triste, com raiva me perguntando por que um filme assim? O que ele traz pro mundo? E amando cada vez mais performers (e diretores performers, os performers que somos o tempo todo) que nos mostram que essa busca da verdade é uma grande criação e que “all you need is your own imagination, so use it that's what it's for, go inside, for your finest inspiration your dreams will open the door”. “Express yourself” é um movimento. Aceite-C

domingo, 9 de outubro de 2016

hora do almoço

quisera eu que você estivesse dormindo
pra não ter que acordar em mim o pensamento
de que você acorda com outro pensamento
que não eu

terça-feira, 13 de setembro de 2016

Azul




Era um dia cinza em frente ao mar. Estar ali dizia de algum modo de um porvir. Aquele movimento mínimo que se faz em direção a um futuro ainda desconhecido. Concurso, concours, course… não sabe bem com o que, com quem percorre esse caminho. Com uma parte de si mesmo. Ali não é tão longe, mas é distante o suficiente. Existe um ar de sonho quando se chega a uma cidade sozinhos. Aquilo pode ser esquecido sem que nunca se possa dizer: lembra? E, no entanto, a cama desconhecida, as ruas a conhecer, e aquele bar quase abandonado não longe da areia compõem a memória de um velho que, no século 30, diante do piano, ao tocar algumas poucas notas: lembra. O copo de cerveja e os pensamentos daquele lugar – litoral, chego e já penso em nem voltar mais, quase nem me mexo numa mesa perto do mar – essa coisa esquisita, uma vontade de ficar falando que não lembrava, parece quase aquelas viagens que se faz sozinhos. Estava viajando sozinho. No litoral quando reencontrou naquele dia cinza em frente ao mar algo de si. Algo de sim. Um sim que talvez um dia. No mar, sem âncoras nem coroas.

Tem esses pensamentos enquanto a música faz uma onda. Ondas para quebrar. Descobre que ela era também uma caminhada, course. Aquele movimento mínimo que se faz em direção a um futuro ainda desconhecido. Aquele, que fez ao entrar no ônibus em direção ao litoral. Como uma flecha. Talvez, quem sabe, um dia...

terça-feira, 12 de julho de 2016

Norte de vento noite


Norte de vento noite, aqui o vento
vem escuro escondendo no breu
o peso e a nuance.
Nem sereno cerúleo, nem roxo
carregado.
Aqui vem lento, de preguiça indormível
vem no encontro, sacudindo dos corpos
o equilíbrio e gravidade.
Vem lúdico, lúgubre, lúbrico
escorregadiço.
O vento vem abrigo. Vaza
nas esquinas anunciando, das Bibianas,
a dor, o desvario.
Resiste à dança e enquanto busca chão
ricocheteia
O vento chama: delírio.

Impostor disfarçando a letargia.

sexta-feira, 8 de julho de 2016

cada mar

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