carta de verão


sem palavras nesses dias, caro

vazios de pensamento
sou um só corpo e um desejo que vaga
impossível


sou um pouco dor nesses dias, caro
mas uma dor não profunda
uma dor que roça
e que se mantém distante

tenho tanto medo nesses dias, caro
medo de perder
medo de ferir
medo de ser

os meus olhos, os meus olhos se escondem, caro
precisam se esconder pois não são límpidos
não sempre são sinceros
ou sabem o que querem

sinto-me às vezes em um mundo falso, caro
princesa de um mundo de fantasia
e como sempre
sempre sempre
prisioneira das gaiolas que invento

férias
parece que me dou um pouco de férias para o pensamento
para não pensar em mim
mas penso em mim todo o dia, aquilo que quero, aquilo que faço
mas não tão a fundo
não
para não ver estes olhos que não posso olhar

e tudo isso é uma tristeza que roça
e não é profunda porque talvez de férias
eu enquanto isso a espero
espero o dia que terei que olhar estes olhos que por enquanto olham o céu e sonham, criam uma saída para a gaiola que já é
verdadeira
mas a saída ainda não, sempre sonho e sempre distante

às vezes estou cansada, caro

e teria vontade de dormir, de dormir contigo, de dormir com ele, de dormir com outros
teria vontade de dormir e não acordar mais

mas a vontade de dormir não me deixa dormir
a vontade não me deixa

Comentários

N disse…
Calma, passarinho, que está lindo, mesmo com as linhas irritantes ;)
[...] disse…
Ah, tudo é símbolo e analogia!
O vento que passa, a noite que esfria,
São outra coisa que a noite e o vento —
Sombras de vida e de pensamento.

Tudo o que vemos é outra coisa.
A maré vasta, a maré ansiosa,
E o eco da outra maré que está
Onde é real o mundo que há.

Tudo o que temos é esquecimento.
A noite fria, o passar do vento,
São sombras de mãos, cujos gestos são
A realidade desta ilusão.

Primeiro Fausto.
O. C., VI v., 1952, p. 76.
Fernando Pessoa - Poemas Ocultistas
lorena disse…
Esther diz:
olha esse blog
Esther diz:
http://amorteumaborboleta.blogspot.com/
(nick do amigo) diz:
gostei bastante
Esther diz:
ela escreve muito bem
Esther diz:
não é forçado
Esther diz:
ela respeita cada palavra
Esther diz:
cada palavra tem um lugar preciso e precioso dentro do poema
Esther diz:
não é poesia cuspida como se ve por aí

Esther é meu nick e prometo que os próximos comentários não serão mais de elogios rasgados, é que esse poema não me deixou outra escolha.

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