carta de inverno

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acho que você tem razão, escritas parecem mais belas, não mais belas realmente porque nada é mais belo do que aquilo que se vive, porém mais belas no sentido de mais importantes. quando ditas ganham a grandeza de ser ditas, como “coisas para se dizer", coisas para contar... como se você fosse um ajudante de chef e se tornasse chef, é algo para se contar... as coisas simples, quando ditas, tornam-se chef...
mas é também verdade que é bom estar nesses lugares, sinto um ar de juventude e olho as coisas já com o ar de saudade desses tempos com tanto tempo pra perder e tanto tempo para olhar
uns para os outros
sair, numa terça-feira, com tantos amigos, caminhar pela cidade vazia, na noite. há uma ar de amor e de coisas inúteis no meio de uma semana que te pede sempre a utilidade das coisas... caminhar pela estrada bêbado te deixa próximo das gentes.
você gostaria de estar aqui, disso tenho certeza.

agora acabei de chegar em casa de um passeio, estávamos as duas em casa, uma tarde gelada, mas com um sol muito bonito, tantas coisas para fazer, mas uma vontade de outras, uma vontade de sol na cara: "vamos passear no sol?" "sim".
duas gurias, um pacote de amendoim japonês e uma garrafinha de água da torneira, um passeio pela rua barulhenta e depois, no parque perto de casa, cheiro de frio e de folhas, cheiro distante de roma, villa borghese.

sentar-se num banco, experimentar o fio de sol que ainda resta, comer os amendoins, olhar os tipos estranhos que passam e os cães bonitinhos ou ridículos: "viu aquele com as patas de trás mais compridas que as da frente?" ... rir e sentir ternura ao ver um senhor que anda com sua bicicleta antiga, ele a usa para que ele não seja antigo e enferrujado. olhar os pássaros marrons ou amarelos, as pombas cinzas com cara de cidade (lembra que quando você era pequena o seu preferido era o joão de barro?)..."lembra daquela vez que matamos aula e fomos todos ao parque para dormir ao sol?" "o que não pensavam de nós naquele tempo..." "vai saber, agora não pensam mais apenas porque não nos vêem" "somos ainda os mesmos" "ainda no parque em dias úteis"
"lembra daquele dia já nesse parque, com a carine?" "tava pensando nisso" "hoje ela disse que vai ter bebê" "o primeiro bebê da turma"

acabados os amendoins e começando a beber a água, levantar e começar a caminhar, olhar porto alegre "lembra quando a gente tinha acabado de chegar aqui?" "era tudo tão estranho"
entrar no prédio (no elevador encontramos uma senhora antipática, mas bonita), entrar em casa, agora limpar a casa, não, não antes de escrever

a sala está escura, o céu vermelho amarelo e azul

e eu te quero muito bem

Comentários

MayrA disse…
eu não estava, mas como me lembro.
(que lindo...)
Anônimo disse…
Bonito mesmo, andar por aí no meio da tarde e encontrar a gente.
Ca
Nique disse…
Como se escreve um suspiro?

:)
:*

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