mesmo assim, mesmo azedo, era de novo ele que me dava um nome e um medo

ele me fazia uns dois ou três elogios por dia. assim com tom de “não é nada”. dois, três elogios. um ou dois beijos. algum carinho distraído. carinho mesmo só pro cachorro (esse merece!). ele não admitia sempre. mas eu era melhor com ele. porque com ele eu era. ele dava um nome pros meu existires que eu pensava naturais. e eu só fazia acreditar, naturalmente. só sabia acontecer no meio de todo aquele nada, sem perceber.


eu olhava pra janela umas dezessete vezes por dia. dezessete vezes de vinte minutos cada. não que meu olhar olhasse, mas aquele azul do céu daqueles dias sem chuva confundia-se com o que se passava aqui, aqui que diziam meu dentro, mas que é suficientemente (ou muito) fora do quarto. dezessete vezes por dia, vinte minutos cada, no azul pela atenção de sempre, daquela que é distraída.


ele dizia que escrever daquele jeito era como uma loucura com gosto de pirulito. eu ri tanto, daquele riso de quem percebe espantado um momento de verdadeiro encontro entre as palavras e as coisas - esses encontros sempre me espantavam -, que ficou azedo. era como ser descoberta. na loucura e no gosto doce. que dava medo. era como ser um assassino cor-de-rosa que de repente perde o disfarce. mais pra pirulito ou pra loucura? tenho que confessar que as cores pastéis ridículas do prédio ao lado me enlouqueciam, mas o gosto azedo não era disso - apesar delas serem cor de pirulito - era de uma fumacinha que vinha à noite. passei algumas noites sem dormir e mesmo assim acordei de susto. com a violência de toda a luz que esconde, esconde melhor que tudo.

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