dos abismos

eu vi a chuva cair no mar e eu vi a chuva cair, uns dois três pingos, logo ali, aqui do meu lado. na mesma calçada, eu no balanço coberto, as flores e o banco ao relento. se eu estico a perna eu pego a chuva, ou ela me pega, ou ela pega em mim. um vento que eu sinto é cantado pelo sino em seu fino tilintar. por que a chuva é o que mais faz sentido agora? e porque fora isso, só as lágrimas? um homem passa devagar com uma xícara nas mãos. eu gosto de xícaras nas mãos, nas minhas. me passa conforto, um tanto de calma, uma promessa de ficar. quedar-se é bonito, querido. um dia eu aprendo
a viver como quem tem uma xícara nas mãos, aí eu vou sentar no sofá, aquele que ainda não temos, numa casa em algum lugar e olhar a TV, aquela que não me faz falta, só pra não fazer nada, ficar do teu lado depois de algo feito. a chuva mais forte depois não insiste, só ameaça. quando foi que desisti da calma pra mim? o relógio tiquetaqueia, a chuva ainda às vezes chove, duas mulheres na cama ao lado velam-se os sonos e eu no lençol de bolinhas (que era de bolinhas antes mesmo que as bolinhas estivessem na moda) escrevo insatisfeita por não saber dizer. gente, eu não pensei que a vida fosse assim! assim desse jeito que sempre venta derrubando o galho junto com as folhas. a chuva mais forte quase chegando a ser daquelas de esquecer o tempo. dizem que amanhã vai chover, daquele jeito que é pra ninguém sair, mas todos saem mesmo assim. de bota talvez, pra se proteger, essas botas que fazem menos sentido aqui, já que quentes. eu já disse, só a chuva faz sentido preenchendo o abismo sob os meus pés e a distância que cavei, todas as distâncias do mundo. sempre falta um lugar, sempre o clima poderia ser outro. eu digo: isso é bom né? quase pra me convencer de que hoje é um dia feliz. e você, entre lágrimas, responde: sim. os corações apertados. de tão pequeneninhos quase nem se vêem no horizonte. mas aqui tem o mar, como você gosta. como queríamos, lembra? o mar, o mar que também não faz sentido. ele é muito grande para os nossos pequenos destinos. eu fui à torre eiffel "de birra" e tentei amá-la como dizem que deve ser. e eu juro, tentei amar o sena quando ele passa em paris. mas o sena, o sena jamais será lindo como o canal du midi, que sempre fiquei esperando desaparecer após o meio-dia, e nunca desapareceu.

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