não dá não. e a gente tem uma mania de falar como velhos. pára com isso, você já falava assim com vinte anos, você já pensava que aquele era o momento mais lindo e agora é esse (esse do qual estou me despedindo?). não dá pra abarcar todos os beijos na boca. nem todos os amores e memórias. nem todos os presentes, recebidos ou vividos. não dá pra abarcar todos os abraços, os beijos na boca, e os sabores que sobram deles, da cerveja, da manhã, da lágrima. e o cheiro de papel higiênico no nariz. todos os goles de cerveja são justificados por algo que não é nem cevada, nem água, nem álcool. o que justifica é uma sede do que passa distraído entre os minutos, do que se insinua e cresce, mas passa ainda sem ser visto. passa entre as mãos e os cabelos de trinta pessoas que vivem juntas.

.

.

o dia acorda cedo e assustado. o dia acorda com dor no ventre, acorda cinza e manchado de vermelho. o dia acorda. o dia dorme em pesadelos e nem tira o pijama. o dia ri só quando sai de casa, o dia morre em casa. o dia não nasce aqui.

.

.

deixar pra trás nunca foi um problema até o dia em que realmente se deixou algo para trás. partir quando tudo se parte é moleza, você, como todos os outros, levam só lembrança do que não existe mais. isso nunca foi percebido até que aconteceu: deixar pra trás nunca foi um problema até o dia em que realmente algo pra trás se deixou. mãos, conversas, cansaços e cabelos. talvez trinta coisas que ainda vivem juntas. e nesse momento, eu ser muitas, não me basta não.

Comentários

Tuto... disse…
suas palavras são fortes... não queria ser esse coitado que ouviu isso, mas acabei sendo na minha cabeça.
Talita disse…
esse coitado não é um, poderia ser muitos ou a vida mesmo, ou você :)

Postagens mais visitadas