"cada aeroporto é um nome no papel"

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acabei de comprar um livro e sentei aqui. acabei de comprar um livro pra ter o que fazer aqui na espera da passagem, mas eu sentei e não o abri: ele não está aqui para que eu possa ler.
a primeira vez que te li.
a primeira vez que li para ti.
vamos brincar de dormir um em cima do outro?
tem gente que dá e tem gente que recebe. amor, pau no cu, voz, colo e pele.
isso de escrever no aeroporto deve ser a busca de um canto onde ficar. a vontade de estar em algum lugar.
e isso de ler pra ti no ônibus, deve ser a vontade de estar contigo em mais um lugar.
é preciso de companhia para ler, mesmo sozinhos. eu lembro que eu li nas férias de julho de 2003 e seus olhos me acompanhavam. você já leu só pra ter o que dizer? você já leu só pra saber o que brilha nos olhos de outrem? e se o bukowski não dissesse nada ele ainda me faria companhia ao terminar a tinta da caneta.
um amigo me disse que livro não é pra ler, é pra ter, ali, soprando forças, soprando fantasmas e fantasias do além, de além mar, de além disso.
eu acho engraçado (ele me corrigiria: curioso) que eu faço cara de quem sabe pra onde vai quanto tô em lugares assim. faço mais: faço cara de quem vai pra algum lugar importante. tudo é mistério no aeroporto. essas pessoas com cara de que sabem pra onde vão.
ai, acho que vou mudar de estilo, pensei, do mesmo jeito que ele fala: parei de ser gay, aí é engraçado e não curioso (engraçado é de rir?).
mas eu falava em mudar de estilo. é que faz um tempo que escrevo só assim. tô meio cansada...



...



ela me chamou a atenção pelo chapéu e os óculos um pouco grandes demais para o seu rosto. entrou na loja de conveniências com cara de quem não sabe muito bem o que quer, mas ficou olhando os livros, apenas os livros. demorou-se em alguns deles, algum kerouac ou allan poe, mas depois de um longo tempo lendo contracapas e primeiras páginas de livros, decidiu por um bukowski em capa verde. ela deixou cair as moedas quando a moça do caixa devolveu o troco, mesmo assim ela não desfez aquela cara de quem finge ir a algum lugar importante e, com cara também de quem sabe pra onde vai, dirigiu-se até uma das poltronas do aeroporto. apoiou o chapéu no banco ao lado, desvencilhou-se da mochila e ficou olhando, hesitante, para o livro. ao invés de abri-lo e lê-lo como seria de se esperar, pegou um guardanapo engordurado e começou a escrever. quem compra um livro com tanto cuidado, quem compra um livro no aeroporto se não é pra ler? era como se o livro comprado para fazer passar o tempo cumprisse com essa função só pela sua presença. coisa engraçada, ou curiosa, talvez. eu queria que ela lesse para mim. que ela escrevesse depois lesse em voz alta, talvez no ônibus, ou num bar. eu lhe pediria, depois de alguns goles da sua voz, para ter também um pouco mais... a sua pele, o seu colo, o seu corpo. ela me daria um beijo tirando a roupa e não os óculos. depois dormiríamos um em cima do outro. então eu lhe confessaria que penso nela desde 2003 ou desde que aprendi a ler. que ela era um fantasma que me visitava em sonhos. uma fantasia do além, do além mar, do além disso. depois eu diria que sou gay e ela ia rir, pois não acredita nem em fantasmas, nem em mim.



...



se ele estivesse aqui, se ele estivesse aqui eu leria o bukowski para ele e diria que quis ler pra ele desde a primeira vez que o vi. eu queria dar pra ele a minha voz, ele queria outras coisas. o meu cu, talvez um pouco de colo e amor também.
mas ele não está aqui no aeroporto. porque a gente sempre fica sozinho no aeroporto? eu queria estar contigo agora como estava no ônibus aquela vez que li pra ti. por mais que sempre se está sozinho quando se lê, mesmo em companhia. talvez a última e verdadeira companhia seja só aquela dos livros mesmo. aqueles que compramos e não lemos.
se você estivesse aqui faria cara de importante, olharia para um homem bonito e depois de um excesso diria: parei de ser gay. eu ia achar engraçado e ia rir, de ti e um pouco da gente, por que a gente é engraçado juntos, engraçado ou curioso, sei lá.



...



ela apoiou o chapéu no banco ao lado e, desvencilhando-se também da mochila, abriu o livro que acabara de comprar. olhando a primeira página hesitou. saberia ainda ler sem que fosse pra você? parecia uma tarefa difícil. ler sem poder presenteá-lo com a sua voz, ele, que ao ouvi-la lia seu corpo inteiro, desejando seu amor, seu colo, seu ânus. não pensou que seria tão difícil. desviou os olhos da página do livro, enrolou uma mecha do cabelo e, perdendo os olhos na grande sala de espera, lembrou dos dias passados com ele na cama. dos dias passados com ele num lugar qualquer, em qualquer lugar qualquer. sem soltar a mecha do cabelo, pegou uma caneta e, no guardanapo que viera com os pães de queijo, começou a escrever. talvez buscasse uma espécie de conforto. o mesmo que buscava ao ler para ele ao andar de ônibus. a busca de um porto nesses lugares por onde só se passa.
percebeu que um moço a olhava, curioso pelo o que ela escrevia. ela poderia levantar e ler o livro para ele. uma frase. poderia levantar, ir até ele, ficar parada ao seu lado e dedicar-lhe uma frase qualquer. num lugar que não é qualquer, pois é um aeroporto, mas fingiríamos que é qualquer. poderia. ele era até bonito e misterioso como um homem no aeroporto pode ser.
ele é exatamente do tipo que você gostaria. poderia.
maldito julho de 2003 em que lia fingindo não ver que ele a olhava. a paixão passa, mas as datas ficam. bem que um amigo me disse que livro não é pra ler a não ser sozinho, depois dá nisso de só querer ler pra alguém, alguém que não é qualquer.
soltou a mecha que aos poucos voltou a compor o volume do resto do cabelo. pensou na última vez, na cama, e ele, ao mesmo tempo em que ela perguntava: me ama? dizia rindo: linda, eu sou gay. ela riu, mas não achou engraçado, com o tempo aprenderia a achar curioso talvez.



...



e se você estiver num aeroporto qualquer e sentir a minha falta? se você estiver perdida por não ter alguém para ler o livro do bukowski que acabou de comprar na loja de conveniências? (se bukowski soubesse que é vendido na loja de conveniências acharia curioso, ou engraçado, como ela diz pra coisas que não são engraçadas, só curiosas, mas essa até que é.)
mas se você sentir falta de alguém a quem presentear com a sua voz, esse alguém que no caso sou eu, que ficava meio bobo lendo a tua boca enquanto ela soltava a tua voz rouca.
eu sempre recebi mais amor do que dei.
e você sempre viajou mais. mas não sei se é por que agora eu tenho certeza que você não volta que eu me preocupo com você se perder num aeroporto qualquer.
será que você está perdida por não ter ninguém para quem ler? e perdida vai fazer aquela cara de importante e fingir que sabe pra onde vai. eu sempre ri dessa sua cara de importante por que não cabia no teu um metro e meio, e por isso a gente era engraçado juntos, ou no mínimo curioso, por que eu com meu um e noventa e cara de babaca, te completava sem igual.
será que você gostaria de estar comigo num lugar qualquer?
eu queria que você pensasse em mim como pensava naquelas férias de julho de 2003 em que eu acompanhava teus olhos na página do livro e o movimento leve da tua boca esboçando sorrisos. você não admitia, mas lia só pra me contar depois. eu achava bom, assim meu olho não perdia tempo com a página do livro. eu não sei se livro não é pra ler como aquele seu amigo dizia, só sei que eles eram mais bonitos nos teus olhos, na tua boca, que ficava bonita até quando ria de mim quando eu dizia que ia deixar de ser gay, logo depois de ficar olhando pra um moço bonito que te atraía também. daqueles moços misteriosos como os mistérios dos aeroportos.

Comentários

Tortuositar disse…
Impressionante Talita, muito.
Adorei o texto.
Talita disse…
obrigada dea! acho que ele foi me assustando na medida em que pedia para ser escrito... :)

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