sentada num cubo preto, alguns morcegos, meu pai chegou:
- sua mãe não volta pra casa hoje, virou prostituta.
os termos não são fáceis, lembro das lágrimas e sentada, eu pequena. lembro do cubo preto e de morcegos.
naquela época morávamos em dois apartamentos, eu estava num deles, fechado. estava escuro e eu sentada, e as lágrimas. viraram prostitutas. virou prostituta ela, minha mãe. não sei se doía nas lágrimas tanto quanto em mim, mas elas caíam grandes e cada vez mais, cada vez mais lágrimas e cada vez “mais grandes”, como se diz quando se é daquela idade. aumentava também com as lágrimas o tamanho do cubo onde eu estava sentada e, de repente, vi-me ilhada. aquele cubo preto, que até então parecia não ter serventia para nada, agora era uma ilha e servia para me salvar do mar de lágrimas que me envolvia. e nisso: caí. para tentar salvar-me mergulhei até o fundo e lá no fundo fundo daquele recém-nascido oceano encontrei uma porta de limo. não, porta rústica de madeira, mas porta de água, de água pois coberta de limo.
abri com esforço e passei aliviada para um lugar que era estrada com casas de pau à pique. iluminada e tranquila a rua, caminhei e nadei tranquila também eu até perguntar a um dos que ali estavam:
- onde é que eu estou?
- macondo
depois da sanga italiana e de outra vertente, você vai ver.
eu fui, fui mergulhando e enxerguei.



para cláudia e seu sonho

Comentários

Postagens mais visitadas