eu não podia deixar de ver essa solidão colada a nós. os quartos e seus fantasmas, o corredor nu. cada dia mais clara, eu via que era ela o essencial. sem nem pensar nele, na noite, na nuit blanche e em blanchot, no cheque em branco, mas olhando os dias, as pessoas. a solidão das assinaturas e o suplício da mão que procura tocar aquele que sofre diante de nós. não há conforto, somente nossas solidões que se encontram, nossas solidões que levamos para passear. ele morreu, num mundo que não nos diz nada. você o conhece? (acabamos por nos envolver). o outro fica aqui, os olhos fixos na sala de espera onde ninguém mais está a esperar. ele era o único que vinha, ele foi o único a morrer. aquele que fica sofre a morte de um desconhecido, nós pegamos a sua mão e sofremos juntos o amante distante, sofremos o amor impossível, as pessoas que passam na rua, o amor partido, a fome e o vomitar, sofremos o quarto vazio, o espalhar-se de belas palavras. sofremos por ela que adormece. ele vem amanhã. ele pegou o pai pela mão para mostrar-lhe como se deve fazer (ele morreu ontem, o desconhecido). não há nada a negar, somente um cheiro que retorna para enlouquecer as mães, todas as mães do mundo, mas os cheiros, só sabemos deles amanhã...

os pés levantados da terra apóiam-se na madeira de um banco, os braços sobre a mesa e os olhos que olham o transparente do líquido a encher o copo. o cheiro do álcool lhe lembra que não há perdão, que não existe perdão assim como o mar, antes dos seus vinte anos, também não existia. era uma palavra na boca dos outros, mas quando o transparente está na sua boca e o cheiro que ele sente sai de seu próprio nariz, é como um mar que passa a existir a partir do momento em que bebemos o líquido salgado. o álcool lhe lembra que não há perdão fora de nosso próprio corpo, e que se ele passa pela boca não é para formular belas palavras, mas para ser engolido como uma “água ardente", os cheiros, sabe-se-os amanhã...

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