todas as noites brancas

porque hoje nas manhãs sou ela e de amanhã não sei. porque não quero e tenho raiva do que virá para te esquecer. desse futuro que me presenteias antecipado. do que não será. hilda. seremos todas. periclitantes. entre atos escancarados, repletos de riso e o silêncio; devir silêncio de toda mulher que é e vem de todos os tempos. espera. quem dirá? se isso que era, era invisível. e, cheia de corpo, quem dirá que não era outro roído até a medula no último almoço? viverão os intactos. pagaremos alto preço e persistiremos na solidão que nos permitem um milhão de gatos.
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"Que boca há de roer o tempo? Que rosto
Há de chegar depois do meu? Quantas vezes
O tule do meu sopro há de pousar
Sobre a brancura fremente do teu dorso?

Atravessaremos juntos as grandes espirais
A artéria estendida do silêncio, o vão
O patamar do tempo?

Quantas vezezs dirás: vida, vésper, magna-marinha
E quantas vezes direi: és meu. E as distendidas
Tardes, as largas luas, as madrugadas agônicas
Sem poder tocar-te. Quantas vezes, amor

Uma nova vertente há de nascer em ti
E quantas vezes em mim há de morrer."

(Hilda Hilst)

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