se eu fosse uma jovem senhora de outrora, vestida em cores claras e saias longas que eu afagaria com luvas de fina camurça e tricô, estaria eu remexendo no baú da sala em busca de renda e encontraria uma caixa forrada em tecido vermelho onde velhas cartas restavam esquecidas; poria-me então a remexer distraidamente os envelopes amarelados e entre eles encontraria, envolto em retalho de linho surrado, algo que não era exatamente uma carta, mas que não deixava de ser um texto a mim remetido num 20 de dezembro distante.

como o 20 de dezembro é o recém passado, sou uma jovem ainda não senhora de um tempo que está mais para agora, encontrei num arquivo do computador, mas o texto bem que merecia ser guardado em caixa forrada em tecido.


Sir


para Talita Tibola


For good is the life, ending faithfully.”


Todas as quartas-feiras, das quatorze às dezesseis horas, eu dava aulas de língua e cultura inglesa – cultura geral, na verdade, não sei bem o que eles ensinam nos colégios – para um pequeno grupo de meninas do Instituto Católico de Botafogo. Eram onze alunas, no início, mas de repente se foi despertando a adolescência, namoradinhos, tudo o mais que isso supõe, e as aulas, antes, tão rigorosamente visitadas, não custaram a desaguar em tédio. Em cinco meses, sete das alunas fugiram, e ao fim do ano restou apenas uma menina. Era pequena e magra, a menina que restou, branca, como todas as outras; no entanto, costumava usar um vestido amarelo de linho um pouco surrado demais para sua condição. Não falava. Apenas concordava com a cabeça. Assim foi que, bem dominada a gramática básica, enveredamos então pelas baladas de Donne, pelas verdades e belezas de Keats; ela respondia aos meus raciocínios, quando amável, com um risinho, ou com nada, às vezes, quando sem interesse. Comecei a me ver sozinho em meu apartamento, eu, um velho de oitenta e três anos, com uma mocinha que nem adolescente era. Jamais seria isso um problema – um problema grave, digo, que minha resignação não desse conta – se a menina não tivesse deixado seu silêncio abusivo, em uma dessas tardes, para me fazer um simples pedido. Escrever um verso de Sir Thomas Wyatt em seu pulso.

Sei que mal dormi as duas noites seguintes. Sem suportar as visões que eu vinha tendo – sempre a ver com o poema ou com a menina, que não raramente gritava, ou pior, sussurava, será preciso dizer o verbo em inglês, whisper, era isso que ela fazia com um verso ou outro no meio da madrugada –, escrevi uma carta à mãe da jovem, afirmando-lhe que eu estava já idoso e que um grave mal de saúde me combalia, de modo que não seria mais possível continuar o trabalho que vinha fazendo com as alunas do Instituto. Fiz crer bem que era um infortúnio, mas que eu, sinceramente, desejava que a menina persistisse no aprendizado do Inglês. Anexei o contato de um professor conhecido, selei o envelope e deitei a carta sobre o monte a ser entregue ao porteiro. Alguns dias depois, recebi a visita de um velho amigo que me fornecera os volumes mais valiosos que li na vida e que sustentaram, durante muitos anos, os meus seminários latinos em Freiburg. Finalmente ele tinha encontrado a edição esgotada dos Collected Poems do meu grande mestre C. Day Lewis pela Dent & Sons. Leu alguns poemas, e se surpreendeu quando antecipei alguns versos melancólicos. Ele notou:

– Sir, me desculpe. Mas há algo perturbando o senhor?

– Por quê, meu amigo? Deveria?

– Não sei. O senhor está um pouco abatido. Alguma mulher, eu suponho.

– Bem, é provável. Mulheres são a segunda causa de mortes dolorosas, não é verdade?

– Ah sim? E qual seria a primeira causa?

– Tortura, obviamente.

Essa pequena tirada espirituosa me animou, sobretudo porque foi feita em Inglês, e são sempre mais delicados os gracejos supostos em língua estrangeira. Animou- me tanto que pedi ao meu amigo para escolher alguma camisa em meu armário que não fosse indigna, depois penteei o resto dos cabelos com o pente molhado; então descemos. Na rua, o ar gelado me fez lembrar imediatamente os tempos passados em Oxford, onde eu comia lombo assado com batatas em campo aberto, na companhia do modesto Mc'Ewan. Oh, Oxford, Queen's College, moças cantando Chaucer nos corredores, oh Lost Paradise, alas, bibliotecas infinitas onde conheci, entre Ulysses e Finnegans Wake, a primeira mulher que me deu seu leito, e a qual amei até sua última pneumonia. Meu deus, assim é. Acabamos por nos sentar em uma pequena padaria. Lá, confessei ao velho amigo minha malograda promessa de viver para sempre naquelas ruas de pedras da igreja Saint-John, entre os muros recobertos de neve e musgo. Fim do café, despedimo-nos. Mas ele carinhosamente fez questão de me levar até a porta da minha casa.

Quando vi a menina sentada na escadaria do prédio, não me assustei. Ela manteve o mesmo rosto calmo, e se levantou. Meu amigo entendeu logo o que estava para acontecer e que não cabia mais sua presença naquele encontro tão íntimo. Ele beijou-me o rosto, sorriu até. E lembro vivas as suas palavras ao se despedir: “A morte é uma menina que faz doze anos, não a entenda”.


Rio de Janeiro, 20 de dezembro de 2010.

João Gabriel Lima da Silva



da primeira vez que li pensei: uma morte branca, um vestido amarelo. vestido de linho. uma morte que é sempre jovem, mesmo para os velhos. violenta como uma ninfeta, branca como uma página virgem, misteriosa como a poesia.
o frio em botafogo, a pneumonia de uma mulher, os poetas esparsos e o humor do narrador.
gostei e continuo a gostar. daí o compartilhar.

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