é desde sábado que tenho a boca seca

é desde sábado que tenho a boca seca e algo me falta. é desde sábado que tenho os olhos convulsos. algo olha em volta com olhos de preguiça e não tem sombra. a língua busca em círculos uma consistência e só desliza. há um deslize depois do almoço e palavras sem dentes. lembranças de dente-de-leite e deleite. é desde sábado que tenho os olhos convulsos e nos pés que doem, pequenas chagas. inevitavelmente perguntam: o que se passa? o que em mim grita, encharca. é desde sábado que durmo na sala e sistematicamente evito meu quarto. somos quatro. estamos de quatro e o chão próximo não anuncia sua chegada. enxerga. na ponta do lápis o cúmulo. o cume, o acúmulo, a matemática. é desde sábado outra órbita e omoplata, “a menina dança” sem metatarsos, sistematicamente evita o compasso. são quatro. é sábado. e não há depois do almoço, nem noite que chegue, nem nome que baste. uma ponte é uma ponte e é o mesmo do outro lado. é terra e mar do mesmo modo. alguém em volta. alguém que volta. alguém no portão e uns tantos pés descalços. um beijo na testa. um olhar de medo e uma língua lerda. arrependendo-se-reprimenda, de que não sabe... é desde sábado. e o que se faz com isso? é desde sempre.
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(no canto do cisco, no canto do olho a menina dança. e dentro da menina ainda dança)

Comentários

MayrA disse…
... desde antes deste.
lindo,
beijo
Talita disse…
linda é a tua mão na minha pra atravessar a ponte

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