da mesma forma que não sei por qual motivo nunca o havia postado, não sei por qual motivo posto agora esse que é, entre os de minha autoria, um de meus textos preferidos. talvez por que reencontrado assim, por acaso, mostra-se ainda tão vivo:


"meu amor, meu querido amor, porque tenho que te ter inteira? quando inventaram um amor assim? quando “de corpo e alma”? quando totalmente, completamente? quando toda minha? te quero meia. quereria o canto da tua boca. uma pinta, uma veia. quero o espaço entre o fio do cabelo quebrado e o andar desacelerado da volta que ele faz em tuas costas. quero tua nuca, mas não teu colo. quero teu queixo, sem teu olho. te quero pela metade como uma língua da qual só apreende-se o essencial: a alegria ou o passo lento. quero só teu acento, tua cadência e teu sorriso. te dedicaria assim um meio pensamento - carta amarelada em letra apagada pelo tempo - numa língua pela metade. fala de meias verdades (lambe teu quase corpo inteiro). porque tenho que te ter inteira língua se podes ser jogada fora? quando posso, quando quero, te jogo e te insulto. uma meia língua feita de restos de línguas inteiras (uma meia língua para calçar no pé) para encontrar o que ainda não sabemos (definitivamente a sola do pé é difícil de se ver). corpos pela metade, para falar do que está no meio (casas abertas para falar de um átrio). escolheria (por acaso?) pedacinho daqui pedacinho de lá. do português o arrastar-se, do italiano o riso, do inglês a precisão, do espanhol a força, do francês... o brie, o brio. comida viva. linguagem morta-viva devorada. comida em partes, um prato novo. regurgitado. mas não, não é uma fórmula, é (apenas) um desejo mal formulado. meu amor, te quero, mas te quero retalho e lembrança. quero o que fica depois do esquecimento. depois da fala. no silêncio."
2009

Comentários

quartoimaginario disse…
Lindo, lindo... fiquei com vontade de colocar esse seu escrito lido como uma carta, num filme, um dia...
Depois fiquei imaginando (já nada a ver com o filme) a Bethânia lendo...rs... daquele jeito dela, forte, intenso... seria bonito também.
Lindo mesmo...

"...te quero, mas te quero retalho e lembrança. quero o que fica depois do esquecimento. depois da fala. no silêncio".

Esse final pra mim foi especialmente tocante.

Escreve muito bem... beijo
Anônimo disse…
Revisito muitas vezes este escrito, e a cada vez me surpreendo com o que deixei de ler na ultima olhada.
Incrivelmente belo.

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