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sempre se poderia comprar um amante e casar com uma bicicleta, seria com certeza mais simples, afinal, de amores baratos os dias estavam cheios. e, por mais descoordenadas que fossem as minhas, para se casar com uma bicicleta, bastaria ter pernas. tratava-se então de movê-las para uma direção qualquer. uma direção qualquer não cabe nos amores, que são um pouco mais categóricos e bastante irremovíveis. a menos que se os leve para passear. sempre se poderia fazer os amores andarem de bicicleta. com o que eles passariam imediatamente à categoria de amadores, aqueles que não sabem exatamente para onde vão, ou não dominam as regras de um caminho a seguir. pensando bem, as bicicletas só são feitas para casar. não assim, de véu, grinalda e aliança no dedo, mas como aliança pura e simples. as bicicletas só são bicicletas se em aliança com algo que move seus pedais, correias e rodas (somente com algo que ativa nelas a potência que têm de passear). são os dois, elas e quem com elas se casa, mais velozes (mais potentes?) nesse encontro. pensando bem, casar, construir uma casa, só pode ser feito a dois, como andar de bicicleta. entre casar e comprar uma bicicleta, o amor perfeito é uma tandem[1].


[1] chamam-se bicicletas tandem aquelas operadas por mais de uma pessoa, mas aos poucos começou-se a chamá-las somente tandem. tandem é um nome que pode ser utilizado para outros tipos de máquinas que sejam puxadas por mais rodas ou por mais de um animal. em francês significa “couple remarcable”, provavelmente origina-se daí o nome das bicicletas, mas seria interessante pensar  que, tendo o nome originado pela bicicleta, uma dupla é “remarcable”, por ser uma dupla que se move.
(escrito em novembro de 2011)

Comentários

Bruno Cava disse…
Loucamente metonímica, adoro!
beijo caprichado.
Rafael F. disse…
Bem pensado...
e escrito.

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