esse é um texto escrito há muito tempo e que nasce de uma relação com uma cidade, evocando um "ar" de santa maria quando eu estava já em porto alegre. hoje ele apareceu diferente, as palavras ganharam carne e outros contornos, nesse outro contexto também de distância, mas de ventos mais tristes e, de minha parte, imobilidade.

o publico, sem alterações de conteúdo, em homenagem às vítimas e familiares do incêndio do dia 27 de janeiro de 2013 e a todos os que estão trabalhando para atender os familiares e feridos.



"o vento do sul estava na boca de todos. talvez por
sua estranha deglutição e aquele difícil respirar que
deixava as narinas mais lentas que os ares. dificuldade
de respirar, balanço das folhas, voar de sacolas.
naquele buraco onde não se via o horizonte, esse era
sempre o prenúncio do fim do mundo, que não vinha.
continuávamos a morar sobre ele, e quando fomos
embora, ao menor resquício de vento (que nunca era
tão assustador como aquele) ficávamos paralisados,
absortos em lugares distantes, em pensamentos
moventes, mas sempre alçados do chão, com os
olhos além acima adentro. olhos afora eu buscava os
teus, aqueles que só existiam na terra do vento.
olhos de vento, olhos difíceis, olhos distantes.
saudade do que não fui e do que não tive. esse vento
que passa lá chega manso até aqui, mas o pressinto,
sinto o cheiro e, mesmo sem ele, entro no clima de
terras balançantes. balanço meu pensamento sempre
até a ti que é só pensamento, que é carne e osso
ausentes. que dor morrer sem saber que existes,
sem saber que cheiras e vives para além de meu
pensar. deveria voltar a ser criança para te amar
como amava formigas, contemplação do amor, pouco
cheiro, distância e impossibilidade de pegar para não
matar. mataria? acho que não, mas deveria aprender,
mesmo assim, a amar-te como se ama a uma música.
mas não sei por que... por que eu amava formigas?"

2009

Comentários

Vivian disse…
Que lindo! Que lindo!

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