As lágrimas, as muitas mortes e as muitas Copas


Há um curta metragem brasileiro, chamado Barbosa em que o personagem principal, atuado por Antonio Fagundes, em posse de uma máquina do tempo, decide que o momento ao qual gostaria de retornar, para tentar modificá-lo é o “Maracanazo”, não sabe se para modificar o rumo da vida “desse homem” Barbosa, ou “de sua própria vida”, mas sabe que precisa retornar àquele momento que para ele era um pesadelo, que fez da sua infância um pesadelo e retirou a sua fé na vida.
Barbosa foi considerado o grande culpado pelo resultado final da partida Brasil x Uruguai na Copa de 50 e pelo Brasil ter perdido em casa a Copa do Mundo naquele ano, uma Copa que todos contavam como já vencida. Tanto nesse curta-metragem como em outras entrevistas ele declara que o fizeram pagar uma pena que durou a vida inteira. Barbosa foi proibido, por exemplo, de visitar a seleção brasileira nas preparações para a Copa de 1994 pelo então técnico Parreira, por ser considerado alguém que “dá azar”.
No curta em questão, o personagem não consegue mudar o rumo do “Maracanazo”, e, por conseguinte, segundo a lógica do personagem, nem os rumos da vida de Barbosa, nem os seus pesadelos, e, portanto, nem de todos os brasileiros. Mas não seria o contrário? Não seriam os brasileiros que estavam presos àquele gol? Barbosa não fora condenado exatamente pelo peso daquele gol e condenado pela nação?

Hoje os jogadores da seleção choram. Eles choram antes do fim, antes de saber qual fim será. Há quem diga que o choro é culpa do movimento anti-copa. Mas não é o coro anti-copa quem vaia os jogadores, quem os vaiará, condenará caso errarem, e não estou nem falando de torcedores, mas de um jogo midiático nacionalista que não sabe falar nem de seleções, mas sempre de herois ou perdedores, que busca lágrimas lamuriosas ou redenções (desde que sejam “de macho” e “de raça”).

As notícias sobre as prisões e detidos simplesmente por participarem de protestos, repressão às manifestações, professores tendo seu ponto cortado por realizar greve, controle militar das favelas com consequentes mortes cotidiandas ocorridas em favelas do Rio de Janeiro, estão totalmente invisibilizadas pela necessidade de realizar uma boa copa do mundo, a melhor copa do mundo, a Copa das Copas. Essas mesmas notícias, para quem as acompanha, com pessoas sendo presas sem provas, provas forjadas, respondendo em prisão sem serem ainda julgadas, deixa no ar um gosto de “a ditadura não acabou” e lembranças de bolas rodadas ao som de “Pra frente Brasil! Salve a seleção!”. Aliás, parece que na Copa de 70 os jogadores não choraram, ou choraram, é que na verdade não importam as lágrimas, mas o que foi feito delas, o que importa é que a seleção de 70 foi e sempre será uma seleção Vencedora como se esperava que ela fosse! Com lágrimas ou não.

Então, não é o movimento #nãovaitercopa que faz os “meninos” da seleção chorar, pelo contrário, já que esse movimento quebra o consenso em relação ao que seja a Copa torna possível a existência pr'além dela e, assim, torna possível o choro, ou a ideia de não ganhar, ou de não torcer, ou de torcer para a Nigeria que já se foi, ou para a Argentina para que Paes se vá, ou até para o Brasil, de qualquer modo, os jogadores, não estarão “mortos” caso não tiverem vencido o jogo. Pra mudar o que foi a vida de Barbosa, não é o “Maracanazo” que deve ser mudado, mas os jogos que se jogam sobre o futebol.



No dia 23 de junho de 2014, na data véspera de um ano da chacina da Maré, foi realizado o Ato “A festa nos estádios não vale as lágrimas nas favelas”, iniciando no Chapéu-Mangueira onde teve “capoeira, grafite livre anti-Copa, roda de Funk Rap, Contação de Historias” e realizando uma caminhada pela praia de Copacabana até o Morro do Pavão-Pavãozinho. A atividade foi organizada pela Rede deComunidades e Movimentos Contra a Violência, Fórum Popular de Apoio Mútuo, Fórum Social de Manguinhos, Ocupa Alemão e várias organizações e coletivos “contra o extermínio de pobre, negros e faveladxs!” e tem previsto um novo ato agendado para o dia 13 de julho, em memória a “1 ano de sequestro, tortura, assassinato e desaparecimento do pedreiro Amarildo”.
As lágrimas expressam a presença real da morte nas favelas, a luta contra o extermínio de pobres e negros, a luta pela vida do povo negro. Enquanto isso os jogadores da seleção brasileira choram nos estádios...

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