Para Bruno, em seu aniversário


Passavam-se já muitas noites sem dormir. O médico dissera que não era possível, que talvez eu estivesse dormindo e não percebesse. Mas aquelas noites sem dormir, a tentativa de respirar. Todas as tentativas eram demais, diziam, faziam demais. Na tentativa de respirar, de encontrar uma posição, um livro, um livro que desligasse.... mas os livros também eram demais! Tão enormes! Me sugavam! Era como se eu deitasse dentro deles, daquelas vozes, letras, triâgulos que as letras faziam. E então naquela noite encontrei Virgínia Woolf e dormi. Antes mesmo de abrir o livro dormi sobre “O tempo passa”. Na manhã seguinte ao acordar me perguntei o que haveria naquele livro que me fizera dormir assim depois de “tanto tempo” e encontrei, na primeira página, essas palavras:

“longe é um lugar que existe
fecho os meus olhos e você desaparece
escuridão improcedente se instala
você não está mais ali
não está em lugar algum
olhos ainda fechados abro a boca
o mundo inteiro está silencioso
enquanto a boca fala
e você não está.
Longe, um lugar em que você existe
longe sua intensidade ofegante
não te invento assim __ longe
a boca segue falando e você longe
a imaginação imaginando, você longe
olhos fechados você nenhuma ficção
não vejo tuas letrinhas mais,
seu dolce far niente em noite bruxa
queimei a tua memória
como queimaram aqueles manequins da toulon
também profanei as vidraças
pixei você e, colérico, te esqueci.
Você desencarnou da minha cabeça
ficou longe. Velha. Sem caroço.
Te beijei. Não você insanamente.
Testei todos os santos-e-senhas
e o longe, ele existiu sempre.
Você era o meu longe...
e eu respirei
a boca abriu
o ar entrou
eu respirei
a sua intesidade ofegante
sopraste a sua loucura miúda
valsaram as estrelas cadentes
continuo respirando
é você meus longes queridos
entra aqui dentro
entra entra
abro os olhos
o mundo inteiro está aí
você está aí ___ sim
o longe é um lugar que existe
e eu estou nele
resirando gemidos
contigo.”

bruno 2013




acordo e respiro contigo. a boca abriu
o ar entrou
respiramos.
Essas palavras são tão mais amplas hoje, assim como a respiração e o ar que elas carregam.
Cantei estrelas massageando os teus pés enquanto conhecias do que era feita toda presença. Das varizes de minhas pernas aos cantos dos pássaros. E uma vida só de presença não cabe, é preciso um fio de grama na boca pra nos conservar equilíbrio, alegria e lucidez. Longe é vasto. Assim como nossas presenças e distâncias. Mas que “el placer que inventamos juntos sea outro signo de la libertad” (Cortazar).

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