Golpe da direita




Caminha em direção às barcas procurando um lugar para parar. Há muita gente esse horário no terminal Araribóia. Começa a achar que há mais do que o normal. A bolsa pesada. Pára. Apóia a bolsa no chão. Fixa numa posição. Posiciona o corpo, a coluna, a barriga pra dentro, encaixa o quadril pra não pesar a lombar, tenta relaxar os ombros. Muita gente. Percebe que não está com o corpo posicionado na mesma direção que a maioria das pessoas, está fazendo uma diagonal. Uma diagonal também com a entrada das barcas. Na verdade está na direção da barca, mas não do portão onde as pessoas entram. Ali de onde está pode ver exatamente, numa linha reta, o local onde as barcas atracam. Mas para entrar ficam retas para o portão e depois fazem uma curva, uma outra caminhada. Ali parada, um pouco em diagonal em relação às outras pessoas, pensa na posição da dança, quando caminham no palco, no estrado, no espaço, às vezes param cada um numa direção, a professora fala do olhar, para que se posicionem. Começa a perceber o posicionamento das pessoas ao seu redor, um casal beijando-se escorado na coluna do seu lado direito, um senhor de terno e mochila na sua frente que conversa no whatsapp, os sons, ouve o atracar das barcas, os anúncios das que chegam e os anúncios gerais do termial – é por aqui que a gente chega lá – a sua posição em relação aos outros, pela parte de trás de seu pescoço ouve um homem que fala ao celular – Sim. Confirmada. O lote era nove, oito, quatro, três, quatro, oito, cinco, três, oito, quatro. Sim. Claro. Aqueles eram outros. Sim. Depakote, Lamotrigina, Topiramato, Carbamazepina. Carbamazepina – Medicamentos, logo agora com toda essa gente, os sons e luzes. Não está nada bem. Se sente estranha. Ouvir essa conversa bem agora. Deve ser um sinal. Lembra do posicionamento. Respira. Não muito fundo. Pela barriga, mas sem perder a postura. Aquela que a professora da dança afro ensinou. Expande o olhar. A barca ainda não chegou. Olha pra um lado. Olha pro outro. Para cima. Os movimentos da cabeça e corpo vão como num fluxo, agora o olhar já está meio borrado, não sabe se deveria ter virado a cabeça assim, e se ficar tonta? Os estímulos visuais aumentaram. Mas a percepção da sala também, é um octaedro. Agora vê a tela de anúncio dos horários acima da sua cabeça, próxima barca 18h20, ai céus quanto tempo pra isso? Pegar o celular da mochila vai ser mais um caos desses. Muitas vozes. Vê a lanchonete à sua direita, mas atrás das roletas. Tem sede, pensa em quanto dinheiro investido em tanta burrice, todo esse cimento, terminal novo, mas a lanchonete está do lado de fora das roletas. Niguem que passe pode comer. Está com fome e já não pode mais comprar nada para comer, à sua direta os banheiros – e se o portão se abrir? Daqui há pouco não sabe quanto, pois não pegou o celular para olhar, por que não anda mais de relógio? Vai chegar a barca. Um pouco de fome, mas não pensa em se mover. Os banheiros. Não, não precisa ir agora, já vai chegar a barca. Poderia tomar água. Conversas entrecortadas. Muitas luzes. Começam a andar, as pessoas. Já está melhor, é, já está melhor. Anda também. Respira. Agora é mais fácil, é só seguir. Nem se quisesse conseguiria desmaiar, ou cair aqui de tanta gente. Então, uma conversa entrecortada chega pela nuca até seu ouvido esquerdo. Uma parte de conversa atrás dela, daquelas que se ouve pela nuca: - Vai cair , vai cair, vai cair sim! - Ela não vai cair, é bom até pra oposição que ela não caia. 



......


esse texto deve muito à passagem de Mel e Fabricio pela minha casa --  presenças, alegrias e conversas --  e ao filme dirigido por eles Para que Não nos Sintamos Tão Sós. também à mestra Eliete Miranda que ensina não só a dançar, mas a caminhar na vida. 

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