Corra e olhe o céu



Um dia meus olhos ficaram vidrados. Era como se a tristeza tomasse conta de meu rosto e acabasse com qualquer expressão possível. Os olhos acompanhavam essa impassibilidade. Olhavam longe. Quando percebi, procurei desfazê-los. Lembrei de minhas crises epiléticas. O receio era de que não fossem os olhos vidrados consequência da epilepsia, mas sua causa. O rosto, continuou no entanto sem expressão. Enquanto isso os olhos passaram a buscar um lugar mais próximo para fixar que não os fizesse parecer tão abestalhados. Forcei-me a mexê-los. O tempo seco ajudava. Lembrei de Leandro que me dizia saber quando estava mal quando olhava para o céu. Quando caminhava olhando para o céu era sinal de que estava mal. Até aqui sempre discordara dele, discordara não, diferira. Lembrava que, quando estava mal, olhava para o chão, caminhava olhando para o chão. E qualquer tentativa de levantá-los era inútil.



(Certa vez eu estava caminhando, acabara de desligar o telefone, quando um homem negro passou por mim. Alto. Não pude não notar o jeito que caminhava. O seu olhar altivo, que eu não via, mas podia apenas imaginar, dirigindo sua caminhada de cabeça erguida. Em seguida, não fosse que então eu era muito mais magra do que a visão que tinha de mim mesma, eu seria muito parecida com a moça que também passava naquele momento em frente a mim. De mãos dadas com o namorado, bem branca, ela era baixa, de pernas grossas e parecia cansada. Colocava a mão na testa. Talvez reclamando de dor. Caminhava relaxadamente, assim como seu namorado, que tinha um corpo parecido com o seu. Caminhavam como se o corpo fosse um peso a ser carregado. Senti que não podia permanecer ali que, se eu continuasse olhando para aquele andar, eu seria sugada por ele e por aquele casal lento. Ultrapassei-os sem esforço e passei a andar entre o casal e o homem que há poco passara, meu andar era um meio termo entre o andar firme do senhor e o moroso do casal. Estava escuro e os faróis dos carros me deixavam um pouco zonza, meu passo era firme, mas eu não conseguia olhar para frente, meus olhos olhavam só para o chão, minha cabeça pendia para o chão, lembrei de Leandro: “eu sei quando estou louco que é quando eu caminho olhando pro céu”. Eu sei quando estou louca, Leandro, que é quando caminho olhando pro chão.)




Mas dessa vez não, estavam vidrados e olhavam para o céu. Para aquele pedaço de azul que surgia entre a copa das árvores e o guarda sol que fazia sombra na mesa em frente. Perguntei-me se as mulheres que ali conversavam percebiam esse não olhar. Mas não obtive resposta, elas eram como sombra. Apenas lembro que eram loiras.



(Eu procurava dizer para mim mesma que olharia para frente, a caminhada daquele homem era o que então me ajudava. O pescoço doía para segurar a cabeça, e era como se algo se transformasse para segurá-las em pé, as lágrimas. Avançava, com passo firme, a firmeza que os seus passos me davam, cambaleio cada vez que ele olhava para o lado e eu perdia o ponto fixo de meu olhar em sua nuca. Preciso me segurar no muro à direita. As lágrimas correm, um rapaz cruza o meu caminho e ao ver as minhas lágrimas abaixa os olhos, parece se constranger com a cena, as lágrimas correm pois eu nesse momento procuro não olhar pra baixo, cruzo outro homem com a camiseta do vasco, quase nos topamos, sorrimos, consigo sorrir, nos olhar nos olhos e dizer “desculpa” mesmo com as lágrimas que correm, pois estou com a cabeça erguida. Nesses momentos de distração, perdi meu ponto de referência, volto a olhar para a frente e o homem que eu seguia, que me dava o passo, não está mais lá. Sou obrigada a seguir sem um guia. Caminho e as lágrimas que surgiram continuam escorrendo, ao passar por um casal, eles me olham, talvez eu esteja destoando da cena, talvez eles estejam só preocupados.)



Talvez fossem sombras aquilo que agora passava diante de meus olhos, mas também entre meus pensamentos. Como se os apagasse todos, todas as lembranças, que restavam no entanto marcadas em algum lugar, no corpo todo, no peito, na nuca. O que fazia com que minha expressão se fixasse, não num sorriso, mas numa boca incorruptível. Um rapaz de vinte e poucos anos senta na mesa perpendicular a mim. Ao lado daquela que estava ocupada pelas mulheres loiras. Ele estava com um livro grande entre as mãos. Maior do que aquele está em minha mesa e que eu tampouco, assim como ele, lia. Tinha lido há alguns minutos apenas o número suficiente de linhas para me fazer vidrar os olhos. Ele parecia também vidrado, mas não por vazio, por espera. Seus olhos eram tristes como os meus e cheios, os dele, de esperança.







Ele começa a ler, apoia a mão na testa, escondendo assim seus olhos dos meus.

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