Nenhum outro lugar que não seja essa cidade média

Um autor disse num conto que os costumes são formas concretas de ritmo, a dose do ritmo que nos ajuda a viver. Ouvi isso numa manhã fria de sol, lido por Daniel. Ele tinha feito o mate, o que combinava com Cortázar e com o conto, que se passa em Buenos Aires, mas naquele momento eu tomava. Sempre digo que não consigo fazer muitas coisas ao mesmo tempo, mas ali, eu ouvia a história dos coelhinhos, olhava para ele lendo, os detalhes dos seus dedos que viravam a página, a pele ao redor das unhas rachadas por causa do frio, a boca concentrada ao ler. Pensava também no sol: como pode algo assim tão maravilhoso? Como não morríamos de calor ali, com quatro blusas de lã ao sol? E eu pensava também naquela frase. No ritmo. E em como aquele momento era fora do tempo. Fora do ritmo. Fora de pauta. Desconexo.

Fico procurando as palavras certas. Quando eu fazia dança eu pegava fácil o ritmo. Sempre digo que em dança ou no ritmo das coisas em geral, eu tenho essa facilidade: andar no ritmo dos outros. Me confundir com o que anda. Com os lugares que ocupo. Mas o que sempre achei difícil é seguir a coreografia. Aquilo que dá um sentido ao ritmo. Ia dizer que a coreografia é o que dá um sentido coletivo ao ritmo, mas mudei de ideia. Acho que também o ritmo em si, só “é” se “é” coletivo. Mas o que sinto então? Arritmia. A frase do ritmo ficou ressoando. Passei o mate pro Daniel. Continuei seguindo suas palavras de Cortázar. A Bisteca me olhou. A gente tinha apelidado ela de Pipoca, um pouco por que eu nunca lembrava o nome dela, um pouco por que combinava. Ela e o Tigrão, desde que a Josi e o Henrique foram embora, estão se estranhando. Não dá pra saber exatamente por quê. O Daniel acha que ela tá assustando ele. É verdade, ela tá ocupando o território da casa toda enquanto ele fica em cima do armário com medo de descer. Mas sinto ela com medo também. Ela sente a minha compreensão talvez -- ou minha inocência -- e me olha. Penso nos coelhinhos do conto. O Daniel lembrou desse conto quando eu tava falando dos pelos do Tigrão. Mais cedo na cozinha quando a gente tava tomando café vi que ele tem os pelos mais longos e lembrei do gato da minha prima, a Duquessa, que se engasgava com o próprio pelo. Daí os coelhinhos. Daí o personagem do Cortázar que vomita coelhinhos. Uns coelhinhos minúsculos que incomodam, ocupam a casa. Como se a casa estivesse cheia de Bistecas-Pipoca e o personagem fosse o Tigrão, assustado no alto do armário, com cada vez menos território. Como deixar a casa arrumada pela manhã, para que quando Sara chegue tudo pareça normal? Para que Sara não perceba a presença dos coelhinhos? Como se nenhum coelhinho tivesse passado por ali. Como vomitar coelhinhos e continuar a vida com seu próprio ritmo? Pensei na epilepsia -- tenho falado muito sobre isso ultimamente, mais do que gostaria -- convulsiva, desritmada. Mas não é isso que me preocupa. Não a desritmia. Me preocupa a arritmia. Daniel devolve o mate, olha um pouco para o sol, talvez pensando que esteja ofuscando sua visão, talvez também pensando em como ele é maravilhoso, e volta a ler. Um momento fora do tempo. A suspensão da sequencia. É isso que me preocupa. Talvez essas palavras se aproximem daquelas que eu buscava. Se não tem depois, não tem ritmo. É preciso uma sequência para a temporalidade? Isso não é certo. O conto acabou. O sol, a Pipoca no meu colo, as cadeiras de praia num dia frio. E aquela sensação de estranhamento. Dos coelhinhos que ocupam a casa. Como deixar a casa arrumada para que Sara chegue e não perceba que os coelhinhos estiveram ali? Como traduzir, escrever, enfim, trabalhar, se é preciso contar que vomitamos coelhinhos? Como esse ritmo? Como conciliar a noite insone e solitária, apesar da companhia dos coelhinos, com o dia cobrando os prazos? Daniel começou a tocar uma música que gosto. Uma música bem Buenos Aires também. Não sei se ele percebeu -- talvez sim -- como ela cabe nesse momento. Estamos numa casa, mas poderíamos estar em qualquer cidade. Qualquer cidade média do interior do Brasil ou outra americana latina. Eu comecei a escrever porque enfim acabou por chegar aquela hora que realmente não consigo mais pensar em muitas coisas ao mesmo tempo. Também não consigo respirar por causa da sinusite. Gosto de escrever, mas não tenho muita paciência. Pra escrever um livro, por exemplo. Nem pra um conto, na real. Acho que tem a ver com isso da arritmia. Porque se eu não terminar esse texto agora, ele vai desaparecer. Não tem amanhã. Nenhum outro lugar que não seja essa cidade média.

Algumas notícias chegam de outros lugares de vez em quando. Procuram falar de um amanhã. Mas são rápidas e não fortes o suficiente para pousar outra luz que não seja o sol de uma sacada de primeiro andar de um prédio de cidade média nesse momento. Então se eu não terminar esse texto agora, ele vai desaparecer. Entrar para o limbo de uma memória inexistente. Talvez eu vomite ele depois -- como aquele escritor disse sobre os coelhinhos de Cortázar, que eram memórias -- mas sem lembrar que ele fazia parte disso. Sem lembrar que ele era ele.

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